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Uma noite com a Esfinge

Posted by luxcuritiba em abril 19, 2008

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Já se foram os últimos turistas, premidos pela fome; o último dos guias embuçados de negro pela milésima vez repetiu seu discurso e erudição superficial, destinado aos estrangeiros que visitam seu velho país; os burricos, cansados, e o camelos, blaterando, empreenderam pressurosos o caminho de regresso, levando os últimos dirigentes da caravana.

A descida da noite sobre a campina egípcia é um espetáculo de inesquecível beleza sobrenatural. Todas as coisas mudam de cor e vivíssimos contrastes se estendem entre o céu e a terra.

Fiquei só, sentado na morna areia amarelada; diante de mim a Esfinge se destacava em sua pose majestosa, estirando-se com imponência. Meus olhos contemplavam fascinados o fantástico jogo de cores sutis, em todos os matizes; aproveitando os últimos lampejos agonizantes que retiravam do Egito seu manto de glória dourada, o sol aparecia e desaparecia em rápida sucessão. Quem pode receber a sagrada mensagem transmitida pelo belo e misterioso resplendor de um crepúsculo africano e não se sentir transportado a um paraíso? Enquanto os homens não estiverem completamente embrutecidos, espiritualmente mortos, continuarão amando ao Genitor da Vida, o sol, que torna possível esses prodígios com a arte de sua magia incomparável. Não eram tolos aqueles homens de antanho quando veneravam Aa, a grande luz, e o albergavam em seus corações como a um deus.

O sol se deteve no horizonte, incendiando o céu com os magníficos lampejos de um vermelho ferrugíneo, de carvão em braza. O colorido foi diminuindo gradativamente e um delicado rubor coralino se estendeu pelo firmamento, até ficar reduzido a meia dúzia de cores diversas, desde o rosáceo até o verde e o dourado, formando um arco-íris diluído que se agitava em reticente adeus à vida. Por último, quando o crepúsculo rapidamente começou a invadir a paisagem, tudo se cobriu de uma opalescência cinzenta. As cativantes cores desapareceram com o grande disco do astro agonizante.

Sobre aquele fundo opalino vi a Esfinge revestir-se da sua roupagem noturna, velando as feições indeterminadas com o vivo reflexo dos últimos raios avermelhados.

Surgida das areias onipresentes, com sua cabeça gigantesca e o corpo reclinado, inspira tanto medo aos beduínos superticiosos que a denominaram a “Mãe do Terror”, quando aos viajantes céticos, em todas as épocas, sua colossal figura impõe perguntas intricadas. O mistério dessa monstruosa combinação, corpo de leão e cabeça humana, exerceu um influxo impreciso e atraiu, no decorrer de muitos milênios, visitantes em procissão interminável.

A Esfinge é tanto um enigma para os próprios egípcios como um arcano inexplicável para o resto do mundo. Ninguém sabe quem a esculpiu, nem quando; os egiptólogos mais competentes só podem conjeturar, às cegas, seu significado e sua história.

Na mirada final que a luz agonizante me concedeu, meus olhos pousaram nos olhos de pedra da Esfinge, fixos e serenos, que viram chegar milhares de pessoas, as quais, uma a uma, miravam interrogativamente a inescrutável face e retiravam-se perplexas; o olhar imóvel da Esfinge – que viu os atlantes, homens de tez morena, de um mundo perdido, desaparecerem sob milhões de toneladas de água; olhar que, semi-sorridente, presenciou a façanha de Menés, o primeiro dos Faraós, que desviou o curso do Nilo, esse bem-amado rio do Egito, obrigando-o a correr em novo leito; olhar que, com silencioso pesar, viu o grave e taciturno rosto de Moisés inclinar-se em sua última saudação; olhar que, melancólico e magoado, testemunhou os sofrimentos do seu país, saqueado e devastado na invasão dos persas conduzidos pelo cruel Cambises; olhar que, belo e desdenhoso, viu a arrogante Cleópatra, a das tranças sedosas, desembarcar de uma galera dourada na proa, de velas de púrpura e remos de prata; olhar que, jubiloso, deu as boas-vindas ao jovem Jesus, o peregrino errante, quando, em busca de sabedoria oriental, se preparava para a hora assinalada de sua missão pública, com a mensagem de amor e de piedade recebida do Pai: olhar que, intimamente cheio de complacência, deu a bênção ao jovem e nobre Salatino, o guerreiro valente, generoso e instruído, ao vê-lo levantar a lança com a meia lua cravada no verde pendão e tornar-se o soberano do Egito; olhar severo de admoestador, a saudar Napoleão como instrumento do destino europeu, esse destino que levara ao ápice o nome do corso, eclipsando todos os demais, para em seguida obrigá-lo a pisar as lisas tábuas do Belerofonte; olhar que, com certa tristeza, viu convergir sobre sua pátria a atenção de todo o mundo, ao ser aberto o túmulo de um soberbo Faraó, para retirar seu cadáver mumificado e seus reais ornamentos, e entregá-lo à voraz curiosidade moderna.

Aqueles olhos de pedra da Esfinge viram tudo isso e muito mais ainda; agora, desdenhando os homens que se consomem em atividades triviais e transitórias, indiferente à interminável cavalgada do prazer e da dor humana que atravessa o vale egípcio, sabendo que os grandes acontecimentos temporais estão predestinados e são iniludíveis, suas enormes órbitas fixam a eternidade. Dão a nítida idéia de que eles mesmos, imutáveis, perscrutam através do tempo e se afundam nas trevas do desconhecido, na origem mesma do universo.

A Esfinge se tingiu de negro; o céu perdeu sua opalescência prateada, e as trevas completas, absorventes, conquistaram o deserto.

E eu continuava sob o poder fascinante da Esfinge, fortemente prêsa minha atenção ao seu poderosos magnetismo, pressentindo que, ao chegar a noite, ela voltava à sua própria existência. O fundo de sombras era seu ambiente apropriado e no misticismo da noite africana encontrava a atmosfera adequada para ela. Ra e Horus, Ísis e Osíris, todos os deuses egípcios desaparecidos, também voltaram furtivamente à noite. Resolvi, portanto, aguardar que a lua e as estrelas aparecessem para revelar mais uma vez a verdadeira face da Esfinge. Fiquei só e, não obstante, a despeito da profunda desolação do deserto, não me sentia solitário.

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As noites do Egito são inteiramente diferentes das noites européias; elas vêm suavemente e sombras matizadas de um azul anivioláceo, e exercem um efeito mágico sobre as mentes sensíveis; enquanto que as noites da Europa são soturnas, terrivelmente categóricas e definidamente negras.

Apreciava pela centésima vez essa diferença, quando apareceu jubilosa a primeira estrela da noite, cintilando tão perto e com tanto brilho como nunca as vemos na Europa; a lua revelou sua presença e, como uma verdadeira sedutora, apoderou-se do céu transformando-o num docel de terciopelo azul.

Comecei a ver então a Esfinge como raramente a vêem os turistas; primeiro foi uma silhueta de tamanho colossal, talhada na rocha, escura e alta como um edifício londrino de quatro andares, elevando-se dignamente numa concavidade do deserto; depois, conforme os raios luminosos iam aclarando os detalhes, apareceram o rosto prateado e as patas estendidas da figura familiar da Esfinge. Vi então nela o impressionante simbolismo daquele Egito cuja origem misteriosa remonta à antiguidade imemorial da pré-história. Estava ali deitada como um cão solitário, guardiã eterna dos segredos milenários, meditando sobre os povos do continente atlante cujos nomes esqueceu a memória frágil da humanidade; a colossal criação de pedra sobreviveu a todas as civilização engendradas até agora pela raça humana e segue conservando intacta sua vida interior. O rosto grave e majestoso não revela nada; seus mudos lábios de pedra comprem o compromisso eterno de guardar silêncio; se a Esfinge oculta alguma mensagem secreta para o homem, ela a transmitiu através dos séculos aos poucos privilegiados que souberam ouvi-la, apenas num sussuro, como o fazem os maçons num supro ao ouvido do candidato à “Palavra do Mestre”. Não é de estranhar que o romano Plínio haja dito da Esfinge que “é a maravilhosa obra de arte ante a qual se observa o rito do silêncio, e é considerada como divindade”.

A noite destaca mais a Esfinge; atrás e dos lados estendia-se a chamada “Cidade dos Mortos”, região literalmente repleta de túmulos. Em torno da base rochosa da qual sobressai da areia a Esfinge, a Oeste e a Norte, todos os túmulos, um após outro, foram escavados para se extrairem deles sarcófagos com os corpos mumificados de príncipes, aristocratas e dignitários eclesiásticos.

Durante seis anos os próprios egípcios, seguindo o exemplo dos pioneiros ocidentais, empreenderam um grande esforço, sistemático e integral, em exumar toda a seção central da vasta necrópole. Retiraram milhares de toneladas de areia das gigantescas dunas que cobriam aquela zona, pondo a descoberto as estritas passagens abertas na rocha como trincheiras que vão de túmulo em túmulo, cruzando-se entre si, caminhos pavimentados que unem as pirâmides aos seus respectivos templos.

Percorri toda essa região de um lado a outro e visitei as câmaras de inumação, os sepulcros peculiares, as salas dos sacerdotes e as capelas mortuárias que a circulam e a fazem parecer um favo de abelhas. Merece realmente o nome de “Cidade dos Mortos” porque, separada por vários metros no espaço e quase três mil anos no tempo, há, dentro dos seus limites, dois grandes cemitérios superpostos. Os antigos egípcios cavavam fundo quando queriam esconder seus mortos; há uma câmara que possui nada menos de cinquenta metros abaixo do nível da famosa calçada. Estive em salas sepulcrais da IV dinastia, onde as efígies de pedra, de cinco mil anos de antiguidade, perfeitas reproduções dos defuntos, continuam de pé, com suas feições claras e identificáveis; quanto aos presumíveis serviços que prestaram aos espíritos, são mais discutíveis.

Todavia, quase não há um túmulo em que a pesada tampa do sarcófago não tenha sido removida e de cujo interior não hajam desaparecido todas as jóias e objetos de valor, ficando apenas as urnas como foram encontradas por escavadores. Os antigos egípcios também tiveram seus saqueadores de túmulos, e quando o povo se lançou-se à procura dos despojos invadindo o vasto cemitério onde as altas personalidades gozavam da honra de ser postas a descansar ao lado das múmias dos reis a quem serviram em vida.

As poucas múmias que escaparam aos primeiros saqueadores da sua própria raça, repousaram algum tempo em paz, até serem violadas sucessivamente pelos gregos, romanos e árabes. As que foram poupadas a essa prova se beneficiaram de um novo repouso que se prolongou até os princípios do século passado, quando os arqueólogos modernos começaram a peneirar o subsolo egípcio para recolher o que haviam deixado passar os ladrões. Apiedemo-nos dos Faraós e dos pobres príncipes embalsamados, cujos túmulos são profanados, e saqueados seus tesouros, pois ainda quando as múmias não tenham sido ultrajadas por ladrões em busca de jóias, o destino parece não lhes ter reservado melhor repouso que o das salas dos museus, para aí serem observadas e discutidas pelo público curioso.

É nesse lúgubre lugar, repleto dos cadáveres de antiquíssima sepultura, que se ergue a Esfinge solitária; testemunhas dos ultrajes e saques da “Cidade dos Mortos”, primeiro pelos egípcios rebeldes, e logo após pelos árabes invasores. Não é de estranhar que Willis Budge, o afamado conservador da coleção do Museu Britânico, haja chegado finalmente à conclusão de que “a Esfinge foi erigida para afugentar os maus espíritos dos túmulos, que invadem o lugar”. Não é de se admirar que o Rei Tutmés IV, há três mil e quatrocentos anos, erigisse sobre o peito da Esfinge uma lápide de pedra de quatro metros de altura e fizesse gravar nela as seguintes palavras:

“Nestas zonas reinou um mistério mágico desde a alvorada dos tempos, porque a figura da Esfinge é o emblema do Khepera (deus da imortalidade), o maior dos egípcios, o ser venerável que repousa neste lugar. Ó habitantes de Mênfis e de todo o distrito circundante, levantem suas mãos e orem ante sua imagem!”

Não é de admirar que os beduínos da cidade vizinha de Gizeh possuam copiosa quantidade de lendas tradicionais que dizem respeito aos egípcios e fantasmas que voltejam, à noite, sobre a área onde está erigida a Esfinge, pois, segundo eles, é esse o lugar onde mais pululam os fantasmas. Porquanto um cemitério antigo como este não é comparável a nenhum cemitério moderno, e os egípcios, ao embalsamarem os corpos de seus grandes vultos, o fizeram deliberadamente para que se prolongasse o contato dos espíritos com o mundo, durante um número incalculável de anos.

A noite, sem dúvida, é o momento mais apropriado para se contemplar a Esfinge e, quando as sombras reinantes dão contornos fantasmagóricos às rígidas formas do mundo material circundante, o mais insensível dos homens crê estar perto do mundo dos espíritos, tornando-se-lhe a mente mais receptiva às sensações agudas.

O céu noturno cobriu-se de um tom índigo-purpurino, tom místico, que se harmonizava admiravelmente com o meu intuito.

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As estrelas foram aumentando até formar-se uma cúpula luminosa sobre a escura imensidão da terra. A lua contribuía com seu esplendor para iluminar a silenciosa paisagem espectral que me rodeava.

O possante corpo de leão sobressaía da oblonga plataforma de rocha e, com maior nitidez, deixava contemplar sua enigmática cabeça. Adiante e atrás de mim, o pequeno planalto perdia-se confundindo-se com o deserto que se estendia até desaparecer absorvido pelas trevas.

Contemplei as abas graciosas da enorme coifa de pedra, semelhante a uma touca, principiando por distinguir seu feitio. A coifa real confere à Esfinge majestade e distinção, qualidades realçadas pela régia serpente que, pousada sobre a fronte, ergue sua cabeça, o símbolo “URAEUS” (1) da soberania, emblema da supremacia divina e humana, de poder temporal e espiritual. A figura da Esfinge aparece com frequencia na escrita hieroglífica, representando o Senhor da Terra, o poderoso Faraó, e um antiga tradição afirma que dentro da estátua há um túmulo do monarca chamado Armais. O arqueólogo francês Mariette, diretor do Museu Egípcio do Cairo, tomou tão a sério essa tradição que decidiu explorar a base rochosa da Esfinge.

“Não é impossível” – declarou numa reunião científica – “que dentro da esfinge, em alguma parte do corpo do monstro, exista uma cripta, uma caverna ou uma capela subterrânea que seja um túmulo.” Porém, pouco tempo depois de ter anunciado seu projeto, a morte bateu à sua porta e lhe tocou a vez de ser sepultado numa cova. Desde então, ninguém se atreveu a perfurar a plataforma circundante da Esfinge, nem a base rochosa onde descansa. Quando, falando com o professor Selim Hassan, a quem as autoridades egípcias haviam confiado a direção das escavações na “Cidade dos Mortos”, abordei o tema e o interroguei a respeito da possibilidade de existirem, sob a Esfinge, câmaras funerárias ignoradas, meu interlocutor desviou a pergunta com uma réplica enfática e categórica: – “A Esfinge foi trabalhada em rocha maciça. Debaixo não pode haver nada mais do que rocha maciça!”

Eu o ouvi com todo o respeito que o professor merecia, mas não me convenci, não aceitando nem rejeitando essa afirmação. Optei por deixar em suspenso a dúvida. O nome de Armais lembra muito o de Harmakis, o deus-sol que, segundo outra lenda, personifica a Esfinge. É bem possível que debaixo dela não haja nenhuma câmara mortuária e que as tradições se tenham confundido com o lento perpassar do tempo. Por outro lado, porém, podem existir recintos abertos na rocha, com outros propósitos que não sejam especialmente funerários, e que os egípcios os usassem, como o provam as outras criptas subterrâneas, a fim de realizar serviços religiosos secretos, que foram sempre bem guardados. Antigas tradições de fontes caldaicas, gregas, romanas e até árabes falam insistentemente de certa passagem a uma câmara subterrânea, que os sacerdotes usavam para se transladarem da Grande Pirâmide à Esfinge. Essas tradições, na grande maioria, carecem de fundamento, mas não há fumaça sem fogo. Tão destros eram os egípcios antigos em abrir passagens na pedra e dissimular as entradas, que nenhum egípcio contemporâneo poderá garantir que o solo onde pisa nunca tenha sido perfurado por engenho humano. Na lápide que Tutmés fez instalar entre as patas dianteiras da Esfinge, os artistas da época esculpiram a figura dela, representando-a num bloco de forma cúbica, onde há todo um edifício com sua grande entrada central e respectivas decorações em baixo-relevo. Ter-se-iam baseado em alguma lenda ancestral, perdida na atualidade? Existiria mesmo um templo em forma de bloco, sepulto na colina rochosa, com a Esfinge descansando no seu teto imenso, como um gigante? Algum dia o saberemos.

O que intriga é o fato de a Esfinge não estar esculpida totalmente na rocha. Os escultores deviam ter reconhecido que um bloco de rocha viva não comportava a dimensão requerida para a enorme obra encomendada, e viram-se obrigados a construir parte do arredondado das ancas e das patas, de quinze metros de comprimento, com tijolos especialmente cozidos e com pedras lavradas, a fim de completar seu tremendo empenho. No entanto, esse conjunto cedeu em parte pelos embates do tempo e da selvajeria dos homens; desconjuntaram-se tijolos e desapareceram outras tantas pedras.

Há cerca de cem anos ali esteve o coronel Howard Vyse, que, licenciado do serviço ativo, regressava da Índia à sua pátria. Em Suez deixou o navio e tornou a diligência postal, mantida pela antiga Companhia das Índias Orientais, para conduzir seus oficiais ao Cairo e dali ao Mediterrâneo, onde tomavam a embarcação. O coronel permaneceu algum tempo no Cairo, atraído pelas pirâmides e pela Esfinge, que visitou repetidas vezes. Ao inteirar-se das antigas lendas que circulavam sobre a Esfinge, empenhou-se em comprovar a veracidade e averiguar se o corpo era oco ou não; nesse intuito mandou perfurar os ombros da Esfinge com enormes ferros providos de cinzéis nas pontas. O resultado foi desolador. As furadeiras, após terem penetrado numa profundidade de oito metros, encontraram sempre a rocha maciça, deixando apenas as marcas das perfurações em sinal do esforço empreendido. Na época do Vyse, porém, por infelicidade só se via a cabeça da Esfinge, estando o corpo sepulto sob a enorme massa de areia; os trabalhos do coronel deixavam, portanto, como estavam, as tres quartas partes sob o monte de areia, e nem sequer se aproximaram da base.

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A noite deslisava furtivamente, silenciosa como uma pantera, numa quietude apenas interrompida pelos uivantes gemidos semi-humanos de algum chacal do deserto, que assinalava o correr das horas. A Esfinge e eu sentados sob a luz clara das estrelas africanas, reforçamos o laço invisível que nos tinha unido, transformando a relação em amizade, e quiçá, também, aumentando nossa recíproca compreensão.

Quando pela primeira vez fui vê-la, há vários anos atrás, a Esfinge tinha cravado seu olhar distante com um tranquilo desdém. Era eu então para ela um mortal a mais, um dos tantos peregrinos insignificantes, um pigmeu imbuído de vã presunção, desejos vaidosos e pensamentos frívolos. A Esfinge parecia-me ser o emblema lobrego daquela Verdade que nunca poderia encontrar ídolo gigantesco, dedicado ao Incognoscível, ante o qual as preces cairiam sem eco nas pálidas areias do deserto e todos os problemas se fundiriam no esquecimento eterno. Fiquei mais cínico e mais cético que dantes, enfastiado do mundo e cheio de amarguras.

Os anos todavia não se passaram em vão; o Mestre Invisível me havia ensinado umas tantas coisas importantes, e eu soube qual era a verdadeira significação da vida. Aprendi que o mundo não girava no espaço, sem ter outra finalidade na sua existência.

Retornei a ver a Esfinge com melhor disposição. Enquanto nos fazíamos companhia na escuridão, ela recostada no seu pedestal, no limiar do deserto da Líbia, eu sentado de pernas cruzadas, na areia, voltei a meditar sobre o misterioso significado do Colosso.

Todos conhecem algumas fotografias da Esfinge e se lembram de seu rosto mutilado, mas ninguém sabe quando e por que foi esculpida em maciça pedra calcária, emergindo da areia, nem quais foram as mãos que transformaram a rocha solitária em uma estátua de proporções gigantescas.

A arqueologia cala-se, baixando a cabeça com vergonha, porque se vê obrigada a retirar suas conjeturas disfarçadas em teorias que sustentava cheia de confiança, até poucos anos atrás. Agora, não se atreve a pronunciar um móvel sequer, nem expor um fato concreto; já não se aventura a atribuir a Esfinge ao Rei Khafra ou ao Rei Khufu, porque chegou a compreender que as inscrições descobertas só indicam a existência do Colosso durante aqueles reinados.

Nos papiros que foram encontrados até agora não há praticamente indícios além da XVIII Dinastia, que digam respeito à Esfinge, e além da IV nenhuma inscrição na pedra a menciona. Nas escavações que se fizeram em busca de antigos despojos, havia uma inscrição em que se fala da Esfinge como de um monumento cuja origem se perde na noite dos tempos, e que foi encontrada casualmente depois de haver estado enterrada nas areias do deserto, completamente esquecida e ignorada de todos. Essa inscrição pertence ao período da IV Dinastia, cujos Faraós viveram e reinaram no Egito há mais de seis mil anos. E PARA ESSES ANTIQUÍSSIMOS REIS A ESFINGE JÁ ERA INCALCULAVELMENTE VELHA.

.:.

A noite traz o sono; mas eu resolutamente o afastava ao chegar a essa altura de minhas reflexões noturnas; as pálpebras cansadas começavam a pesar movidas por rebelião involuntária, e minha mente a dormitar; duas forças disputavam a supremacia – a primeira era um desejo ardente de passar a noite acordado junto à Esfinge – a segunda, um crescente impulso de entregar corpo e alma à suave e soporífera carícia das trevas envolventes. Por fim, logrei conciliar as duas coisas, firmando um tratado de paz em virtude do qual eu manteria os olhos apenas entreabertos numa vigilância renitente que não me permitiria ver nada, e a mente apenas desperta deixaria deslisar os pensamentos num devaneio colorido, em câmara lenta.

Abandonei-me um instante à serena languidez que sobrevem quando a mente permanece em repouso. Não sei quanto tempo havia passado nesse estado, quando num dado momento sumiram da minha visão mental as cores, e no seu lugar apareceu uma ampla e extensa paisagem, iluminada pela luz fosforescente do plenilúnio.

Vi-me rodeado de uma multidão de figuras escuras que se moviam apressadamente, indo de um lado para outro, algumas levando cestas carregadas na cabeça, outras subindo e descendo as frágeis estacas de um andaime armado junto a uma enorme rocha. Havia entre elas os encarregados da obra, que davam ordens aos operários e observavam atentamente o trabalho dos homens, que armados de martelos e cinzéis lavraram a pedra previamente marcada com pontos, imprimindo uma forma ao desenho. O martelar contínuo soava insistentemente no ar.

Aqueles homens tinham o rosto oval, a coloração da pele castanho-avermelhada ou amarelo-acinzentada, o lábio superior notavelmente saliente.

Concluindo seu labor, o escarpado promontório rochoso se havia transformado numa cabeça humana gigantesca, assentada num corpo de leão, formando um conjunto monumental que se erguia no centro de um grande bloco de granito. Na cabeça da estátua, sobre uma curiosa espécie de touca de amplas pregas, presas atrás das orelhas, havia um disco de ouro maciço…

A ESFINGE!

A multidão desapareceu, deixando a paisagem tão silenciosa como túmulo deserto. Vi então à minha esquerda um mar extenso que cobria a terra com suas águas tranquilas, a uma légua de distância. Aquele silêncio continha algum presságio que não pude compreender, quando do coração mesmo do oceano veio um bramido profundo e prolongado, a terra estremeceu sob meu corpo, e com estrondo ensurdecedor alçou-se no ar uma imensa parede de água que se lançou sobre nós, a Esfinge e eu, e nos inundou a ambos.

O DILÚVIO!

Houve um intervalo, não sei se de um minuto ou de mil anos, antes de ver-me de novo sentado ao pé da grande estátua. Olhei em redor, não havia mar nenhum. Em compensação, via-se uma extensa planície pantanosa, ressequida pelo sol e salpicada aqui e acolá de grandes manchas brancas, granulosas e salgadas. O sol em brasa lançava, implacável, seus raios escaldantes na areia deserta, até que as manchas foram aumentando em tamanho e quantidade. Ao desaparecer a última gota da umidade dos pântanos, a campina e transformou numa superfície fofa, porosa, seca e cáustica de cor amarelo-pálida.

O DESERTO!

A Esfinge continuava contemplando a paisagem; parecia satisfeita com sua existência solitária. Os lábios grossos, fortes, pareciam estar prontos a desabrochar num sorriso. Que perfeita harmonia havia aquela figura solitária e o solitário ambiente que a rodeava! O espírito da solidão parecia ter encontrado naquele Colosso impassível sua digna encarnação.

Assim seguiu a Esfinge na imperturbável espectativa, até o dia em que uma pequena flotilha de barcos acostou à margem do rio; um grupo de homens desembarcou, avançou lentamente e aproximou-se da Esfinge, prosternou-se diante dela, levantando suas preces jubilosas.

Desde aquele dia o feitiço do silêncio rompeu-se; nas planícies, nas terras adjacentes construíram-se vivendas e os reis iam com seus sacerdotes fazer corte à que era a rainha sem corte do deserto.

Com a chegada deles foram embora as minhas visões, como se apaga a chama do candeeiro, quando acaba o combustível.

Fonte: O Egito Secreto, Paul Brunton, Editora Pensamento, pp. 9-19.

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