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Perambulando pelas possibilidades

Posted by luxcuritiba em abril 19, 2008

24-05-2007

Acordei cedo, com frio. Curitiba é uma cidade onde quedas de temperatura pela madrugada são comuns. Ao levantar para pegar outro cobertor percebi luz por baixo da porta. Fui ver o que era. Alguém esqueceu a luz da sala acesa. No relógio marcava 4h25. Aproveitei para ir ao banheiro, peguei o cobertor e voltei para a cama. Concentrei-me em manter-me lúcido durante o adormecimento do corpo para conseguir uma projeção consciente. Por experiências anteriores já sei que os períodos matutinos como esse são ótimos para se conseguir projeções integrais e conscientes.

.:.

Estou batendo numa porta. Espero. Um jovem abre a porta, com cara de quem acabou de acordar.

– Olá. O Moriel(*) está?

– Está. Lá no final do corredor.

Do outro lado da porta vejo um corredor comprido, com portas de lado a lado. Parece ser uma república de estudantes. Cada porta dá para um quarto apertado, com uma ou duas camas, e uma porção de trecos jogados pelos cantos. No corredor também prolifera objetos jogados, uma máquina de lavar com uns cacarecos encima, e mais uma porção de coisas no chão, aqui e ali. Curiosamente os quartos não têm portas. Chegando ao final do corredor olho para os lados a busca de meu amigo. Encontro-o no quarto da direita, deitado na cama, aparentemente dormindo.

– Olá. – digo, entrando no quarto.

Ele levanta-se lentamente para ver quem é. Parece bastante cansado.

– Olá.

– Vim conversar com você. Pode ser?

– Claro. – responde, fazendo esforço para sentar-se na cama.

Ao mesmo tempo que estava feliz por rever um velho amigo, também estava constrangido por vê-lo naquele estado. O quarto era uma bagunça total, com roupas e livros jogados para todos os lados.

– Como você está? – perguntei.

– Bem.

– Lembra-se do dia em que nos conhecemos?

– Não.

– Lembra-se do nosso último encontro? – Eu estava curioso para saber como tinha sido sua vida desde que nos separamos. Mais do que isso, queria saber qual o momento exato em que houve a bifurcação espaço-temporal e nossos caminhos se separaram definitivamente.

– Não. – foi a resposta seca. Fiquei um pouco decepcionado.

– É a droga. – disse uma colega do quarto vizinho, que aparentemente estava ouvindo nossa conversa do corredor. – Tá acabando com a cabeça dele. – completou, e sumiu pela porta tão rápido quanto apareceu, meio envergonhado.

– Droga? – falei de mim para mim mesmo, não necessariamente surpreso.

– Cara, você precisa parar com isso. – disse para ele, que pareceu não ouvir.

– Tenho algo para lhe contar. Essa vida que você está vivendo é apenas uma, dentre uma infinidade de vidas diferentes. Eu já passei por algumas delas. Não sei ao certo como isso acontece, só sei que uma hora estou aqui e outra hora estou ali. Há um monte de vidas diferentes, e você escolhe qual delas vai viver.

Ele virou-se para o lado por um instante, para vomitar. Ao voltar-se sua boca ainda estava suja, mas ele pareceu nem perceber. Neste momento ouvi tocar a campainha. Logo alguém veio informar que sua mãe estava na porta esperando para falar com ele. Por minha visão remota vi uma senhora alta e gorda, com um sobretudo e um chapéu pretos, esperando do lado de fora da porta.

– Eu preciso ir. – disse ele.

– Só mais uma coisa. – disse eu. Queria fazer alguma coisa para garantir que ele não ia esquecer de nossa conversa. Pensei em flutuar, coisa que sabia fazer bem e provavelmente ia impressioná-lo.

– Olhe. – disse, e afastei-me um passo. Fiquei com os pés juntos e os braços dobrados nos cotovelos, concentrando-me para levitar. Por um breve instante fiquei com receio de que não pudesse fazê-lo, mas logo meu corpo começou a se elevar no ar, até ficar a uns 30 ou 40 centímetros do chão.

Ele começou a rir dizendo que podia fazer o mesmo. Imitou minha posição fazendo de conta que estava se concentrando, debochando de mim.

– Preste atenção. – disse, isso não é só um truque de mágica. – E lentamente desloquei-me para traz, até o corredor, onde vi que não tinha ninguém observando, e lentamente voltei para perto dele.

– Sabe, quando você desenvolve suas habilidades, – disse para ele, apontando para sua cabeça – coisas acontecem. Pense nisso.

A campainha tocou novamente.

– Eu preciso ir. – disse ele. – Se não atender minha mãe ela não me dá a pensão.

– Fui afastando-me de costas, ainda flutuando, passando por uma porta no corredor, que dava para uma área aberta.

– Espere. – disse ele, correndo em minha direção.

Fui afastando-me mais rápido, passando sobre o muro, flutuando mais alto, até sair de seu alcance de visão. Fiquei flutuando assim por alguns instantes, planando sobre a cidade, a alguns metros do chão, vendo passarem as ruas e casas.

Passando rapidamente sobre um rio lateral à estrada, vi uma árvore com alguns galhos quedando sobre o rio. Num galho havia um conjunto de 5 velas brancas. Voltei um pouco para ver com mais detalhes. As velas estavam apagadas (ainda não haviam sido acessas) e no galho ao lado havia mais umas três ou quatro velas brancas. “Que estranho”, pensei, “isso não é lugar para se fazer um trabalho”. Pelo que sei normalmente esses “trabalhos” com velas são feitos em encruzilhadas. E porque as velhas não haviam sido acessas?

Neste momento o despertador tocou. Eram 6 horas da manhã.

(*) Moriel é um nome fictício.

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